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Sábado, 13 Junho 2026 17:26

Antônio dos Pobres: quando o teatro deixa de ser palco e vira experiência

Coluna
Peça Antônio dos Pobres - Teatro Grajaú - Rio Peça Antônio dos Pobres - Teatro Grajaú - Rio

Existem peças que contam uma história. Existem peças que emocionam. E existem aquelas raras apresentações que conseguem algo mais difícil: transportar o público para dentro de uma experiência coletiva.


Por Luciano Azevedo

Foi exatamente essa sensação que tive ao assistir "Antônio dos Pobres", espetáculo escrito e protagonizado por Ludoviko Vianna, com direção de produção de Jackson Gonçales.

A peça apresenta a trajetória de Santo Antônio, uma das figuras mais populares da tradição cristã. Conhecido por muitos apenas como o "santo casamenteiro", Antônio foi, na verdade, um homem que dedicou sua vida à defesa dos pobres, dos excluídos e daqueles que viviam à margem do poder. E talvez seja justamente essa dimensão humana que a montagem consegue resgatar com tanta força.

antonio dos pobres ludoviko vianna

Antes mesmo do início do espetáculo, algo já parecia diferente.

Ao invés de surgir no palco, o elenco atravessa o público em uma espécie de procissão. Não é apenas uma entrada cênica. É um convite. Aos poucos, a fronteira entre plateia e palco começa a desaparecer. A procissão continua simbolicamente durante toda a apresentação, criando uma atmosfera que não lembra apenas um teatro, mas também um espaço de encontro, reflexão e pertencimento.

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Foi impossível não perceber o cuidado da montagem em construir uma experiência imersiva. Em determinado momento, os atores distribuem pedaços de pão para todos os presentes. Um gesto simples, mas carregado de significado. Na tradição de Santo Antônio, o pão representa partilha, solidariedade e cuidado com os necessitados. Nas mãos do elenco, o símbolo deixa de ser representação e se transforma em vivência. 

Por alguns instantes, a sensação era curiosa: parecia que eu estava participando de uma celebração religiosa. Mas não era uma celebração religiosa. Era teatro. E justamente por isso o resultado se torna tão interessante.

A encenação não tenta converter ninguém. Ela apenas convida o espectador a experimentar valores universais como compaixão, solidariedade e humanidade.

Grande parte dessa força nasce da interpretação de Ludoviko Vianna.

É difícil descrever com precisão o que acontece em cena. Existe um ponto em que uma atuação tecnicamente excelente se aproxima tanto da verdade que a distinção entre ator e personagem começa a desaparecer. Em diversos momentos tive a sensação de não estar assistindo alguém interpretar Santo Antônio, mas alguém vivendo aquelas palavras.

A cena da morte é um exemplo disso.

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Os detalhes do rosto, a respiração, o suor, a vulnerabilidade e até mesmo o medo compõem um retrato profundamente humano. É uma sequência que eleva o espetáculo a um nível raro de maturidade artística e demonstra o domínio que Ludoviko possui sobre o texto que ele mesmo escreveu.

Outro mérito importante da montagem está na valorização do conjunto.

Todos os atores possuem voz. Todos possuem espaço. Todos participam da construção dramática. Em uma época em que muitos espetáculos se apoiam exclusivamente em um protagonista, "Antônio dos Pobres" escolhe compartilhar a narrativa com seu elenco. A decisão não apenas fortalece a obra, mas também dialoga com a própria mensagem do personagem central: ninguém caminha sozinho.

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Entre os momentos mais marcantes está o encontro de Antônio com um rei. A cena coloca frente a frente duas formas de autoridade: o poder institucional e a autoridade moral. É um daqueles instantes em que a história deixa de falar apenas sobre o passado e passa a dialogar diretamente com o presente.

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A trilha sonora também merece destaque especial.

Executada ao vivo por um músico discretamente integrado à cena, ela funciona como uma presença constante e orgânica. A escolha de incluir canções como "Romaria", de Renato Teixeira, amplia ainda mais o alcance da obra. Não se trata de uma música litúrgica. Trata-se de uma canção profundamente brasileira, ligada à fé popular, à caminhada e à busca por significado. Sua presença ajuda a construir pontes entre diferentes tradições e sensibilidades.

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Talvez seja justamente essa capacidade de unir elementos aparentemente distintos que torna o espetáculo tão especial. A peça fala de um santo católico, incorpora cantos associados a diferentes manifestações religiosas, utiliza símbolos universais e constrói uma experiência acessível a qualquer pessoa, independentemente de sua crença.

Ao final da apresentação, a impressão que permanece é simples e poderosa.

"Antônio dos Pobres" não foi apenas encenado.

Foi compartilhado.

E talvez esse seja o maior elogio que um espetáculo sobre Santo Antônio poderia receber.



luciano
"Integrando os 92 municípios do estado"
Luciano Azevedo (Fundador e mantenedor)
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